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sexta-feira, 26 de abril de 2013

CRÔNICAS PARA LER NA ESCOLA - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO





Crônicas para ler na escola - Ignácio de Loyola Brandão
Autor: Ignácio de Loyola Brandão
Organização: Regina Zilberman
Editora: Objetiva
 Rio de Janeiro 2ªed., 2010
CRÔNICAS


            As crônicas têm o poder de congelar os momentos corriqueiros para que possamos, com mais cuidado, apreciar coisas que não mais percebemos ou, por causa do cotidiano cada vez mais alienante, deixamos de valorizar. Um bom exemplo é um bom banho de chuva.
            Homem feliz na chuva” é um exemplo de desejo que muitos não têm coragem de satisfazer. Loyola narra a libertação de nossa infante alma contra as opressões de nossas circunstâncias. O mesmo ocorre em “A sala dos livros mortos” onde a funcionária de uma biblioteca resgata, um por um, os confinados a uma prisão doentia perpetrada pela burocracia.
            Quase um diálogo com o leitor, os escritos de Ignácio de Loyola Brandão são um convite para adentramos nas profundas percepções do escritor, suas reflexões e descobertas. A confusa jornada da “Menina que queria visitar a tia” e não sabia ao certo para onde ir e para onde voltar ou o homem que dava “Marteladas na cabeça”, na cidade de São José de Rio Preto, só para sentir o alívio que sentia quando as marteladas cessavam.
            O prazer em ler narrativas desse teor está na constatação de nossa fragilidade humana, próximas de nossa realidade angustiante e torturadora por causa de nossas ansiedades, medos, receios (Vestibular. Que Canseira!), vícios e manias (Uma academia na madrugada), curiosidade ou invenções (O raro besouro que abre portas) e em nossas demências (A velha que odiava os raios).
Todos reunidos numa bem feita organização elaborada por Regina Zilberman, estudiosa sobre literatura, muito respeitada nos círculos acadêmicos.

“E se o se se concretizasse” p. 78 – Crônica: Vestibular. Que canseira!

Valdir dos Santos Lopes
Professor de Literatura

domingo, 13 de janeiro de 2013

HOMEM DE FERRO NOIR


HOMEM DE FERRO NOIR
SCOOT SNYDER E MANUEL GARCIA
PANINI BOOKS, 2012
BARUERI - SÃO PAULO

            Comprei com desconfiança ao olhar na capa um Homem de Ferro diferente da imagem que sempre carreguei da infância. Ainda mais o termo NOIR. O termo eu já havia lido em algum curso de literatura norte-americana, mas até então não fui motivado a entender profundamente o que significava.




            Então li a história de Tony Stark, na efervescente era americana de 30. O grande homem das edições MARVEL – As aventuras dos Grandes Homens. Em sua última aventura à busca de uma Máscara de Jade, Stark perde seu cronista Virgil Munsey, assassinado pelo Barão Strucker e seu grupo nazista.

            O grupo além do cientista da morte, Dr. Heinrich Zemo, tinha a bela e perigosa Dra. Gialetta Nefária, infiltrada na missão de Stark, que logo se mostraria e roubaria a Máscara.

          
  A aventura não para quando Tony descobre uma pesquisa feita pela traidora, sobre a mítica cidade de Atlântida. Nessa jornada, o leitor tem a oportunidade de seguir Tony Stark, seu fiel amigo James Rhodes e ao lado da bela Pepper Potts, nova cronista da Marvel, em busca da cidade naufragada e seu principal tesouro.

           
O elemento noir acrescenta ao perfil de Stark a tradicional displicência do herói. A teimosia peculiar do personagem somado a sua figura sedutora dá ao trabalho de Snyder e Garcia um valor impar. Matéria de colecionador.

O grande presente é o roteiro elaborado por Snyder do primeiro número da encadernação. Neste documento, acompanhando as indicações nas páginas, podemos compreender melhor a feitura do HQ, como a preocupação em dar um caráter noir á obra.

 Invejável peça para uma digna coleção de colecionador.

           

sábado, 12 de janeiro de 2013

MULHER-GATO – (JEPH LOEB, TIM SALE)


MULHER-GATO – (JEPH LOEB, TIM SALE)
Editora Panini Books, 2012
Barueri, São Paulo.


            Quem é fã de Batman não pode deixar de admitir que Selina Kyle é um atrativo a mais na história desse grande e obscuro detetive dos quadrinhos. Pois hoje tive o prazer de me deliciar com uma edição de luxo. Um grande presente para mim quando comprei “Mulher-Gato: cidade eterna, da editora Panini Books, 2012.




            Primeiro tenho que falar do desenho, já que é algo que me chama a atenção num HQ. As qualidades de Tim Sale são inúmeras e isso é atestado pelo presentinho final da obra.   No “Esboços” um breve comentário das linhas mágicas produzidas. Um sabor a mais. Dá vontade de saber desenhar. Ainda falando do desenho devo elogiar a desenvoltura, com o claro e escuro tão essencial no mundo fantástico de Batman. Os contornos primorosos não têm a pretensão de ser fiel a realidade e não deve nada aos clássicos dos melhores riscos dos quadrinhos.

            Já Dave Stewart contribuiu maravilhosamente com suas cores mágicas. Junto com Sale produziram páginas primorosas. Na página 19, por exemplo, com a presença do rancoroso Harvey, sinto até as espessuras da pincelada no tradicional uniforme de Duas Caras. Os destaques de página inteira são uns dos pontos que mais me agradaram. E nesse ínterim devo parabenizar Sale e Stewart. Para um fã de HQs como eu, desejar essas páginas como pôster é o mínimo. As páginas que descrevo abaixo são as que me apaixonaram: 
As páginas 19 com o Duas Caras, 23 com o Rosto da espantada Selina, 37 com a Mulher-Gato correndo no telhado, a 80 com a presença da Mulher-Leopardo (grande amiga-inimiga da Mulher Maravilha) e a página 112 com uma fabulosa lua abrilhantando a presença da Mulher-Gato no telhado.


            Por fim, o fabuloso roteiro nas mãos de Jeph Loeb que respeitou o mundo mágico do maior detetive dos quadrinhos. A busca de Selina em Roma permeada por mortes e atentados misteriosos convida o leitor a todo o momento reconstruir os fatos em busca de claridade. Além de merecer estar no rol da literatura chamada policial, possui poeticidade frequentemente encontrada no discurso da Mulher-Gato:

“O que você sabe sobre mulheres caberia num dedal... e haveria espaço suficiente pro seu cérebro.” – Selina Kyle (Mulher-Gato)


            E o humor sempre característico no falar insano de Nigma (O Charada, que perde muito para o grande vilão piadista do universo do Morcego, Coringa):

“Pergunta: Quem é o idiota agora?” – Nigma (O Charada)


            Infelizmente tenho que destacar um ponto negativo, pois havia uma necessidade imperiosa de entender o dialeto italiano para desfrutar completamente da obra. Falha da NT (Nota do Tradutor). Poderiam ser mais caridosos com quem não está a fim de aprender a língua da máfia e deixar um quadradinho no fim da página traduzindo aquilo que os carcamanos gritavam.

            No geral, meu livro ficará guardado no saquinho original para não pegar pó. Coisa de fã, de colecionador ou de doido mesmo, coisa que nunca neguei em ser.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

ESCOLHI SER ALBINO



 
ESCOLHI SER ALBINO
Autor: ROBERTO RILLO BÍSCARO
Editora: EDUFSCAR, 2012  SÃO CARLOS, SP.
Autobiografia


Os escritos do professor Roberto Rillo Bíscaro são incisivos, cheios da sinceridade cortante que tem. Quem o conhece ou já teve oportunidade de conversar com ele perceberá que a estilística comunga com a oratória. Sem medo de ser o que é, de pensar e dizer o que pensa, talvez pelo mecanismo de sobrevivência que criou no decurso do tempo, como relata em “Escolhi ser albino”, livro autobiográfico publicado pela EDUFSCAR.

Dessa forma não posso furtar-me de citar algumas frases, que fazem jus a sua personalidade.

“Adoro experiências novas e quebrar ideias pré-concebidas.” p. 27

“Afeto é via de mão dupla, cuja largura ou estreiteza quem constrói são engenheiros de ambos os lados do caminho.” p. 89

Quem espera proeza e relatos épicos de um grande herói grego pode se frustrar. Até porque a autobiografia não é de nenhum fundador de cidade alguma ou combatente em guerras faraônicas. Mas é de um menino pobre que virou doutor. Não desmerece esse fato, enaltece à vista dos mais cuidadosos.

Um relato intenso e talvez angustiante, pois ao leitor é aberta a tela da vida de uma criança em volta com a sua diferença. Diferença essa alardeada por todos que conviviam com ela. Mas também uma narrativa serena e humorada de quem sabe que o que a vida lhe legou não foram misérias, mas degraus para o autoconhecimento. Ciente dos verdadeiros inimigos, não esmoreceu:

 “Os verdadeiros inimigos sempre foram o preconceito e a condição social desfavorável.” p. 18

“Quem possui alguma deficiência necessita de serviço redobrado porque o mundo não é pensado para nós” p. 80

Não pretende ser um alerta, apesar de podermos inferir na história do menino albino que venceu a sociedade: Não estamos preparados para as diferenças. Nunca estivemos. Talvez porque é mais fácil esconder do que relacionar. E quando as diferenças nos fazem rever posições, então buscamos, apesar de aturdido e alarmado, remediar.

Lembro-me, uma vez em sala de aula,  que o professor Roberto Bíscaro, então meu professor de Literatura Norte-americana, alertou-me do perigo da passividade em que os diferentes reagem em relação ao tratamento social. Nunca foi adepto do coitadinho. E deixa bem claro em seu livro. Iria vencer e para isso usaria de todas as qualidades que possuía. A sociedade demorou a reconhecer seus dons. Mas ele sabia desde o princípio. Isso deixa claro em cada linha que se agiganta, página por página em sua autobiografia.

E verdade que esse otimismo não lhe caiu do céu. Pois foi cercado de pais e irmãos com a mesma qualidade. Pois viviam tempos difíceis, onde a capital paulistana e o interior elitista não proporcionavam bons ventos aos pobres e à minoria religiosa. Pois, além de um filho albino, eram pobres e espíritas. Realista, via o mundo pela ausência da ótica mundana.

“Perdemos tanto tempo imaginando lutas quixotescas contra moinhos de vento ou lutando contra tais invencionices de nossas cabeças, que deixamos o essencial de lado, isto é, desfrutar da vida plenamente, sem medo e sem se preocupar com a opinião alheia” p. 176

Uma das coisas que me acendeu ao ler a biografia do professor Roberto é entender a determinação de alcançar objetivos apesar das dificuldades.

Há sonhos em mim ainda distantes e vejo-me estagnado. No livro e como em qualquer atitude para quem conviveu o mínimo possível com Roberto, um tapa na cara é dado ao nosso comodismo, à autopiedade, à fraqueza e a inércia. Terei que ficar parado após essa aula de autoconhecimento, valorização e sobrevivência? Creio que não.

Ler autobiografia nos ajuda a continuar, apesar dos pesares. Ainda mais quando o autobiografado não é um ícone da década, uma figura histórica, um pop star, mas uma pessoa comum, com problemas talvez semelhantes, que preferiu agir.

Outro ponto a ser destacado é o foco e a persistência do professor a atingir seus objetivos. Sempre visando patamares maiores. E quando alcançados, visando outros. Não se detendo na iminência de algum problema, como no caso do fechamento do curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Penápolis. Para quem realmente poderia ter escolhido ser refém do fado, comportamento ainda forte na cultura brasileira, decidiu ser diferente, escolheu ser albino.

É um bom exemplo para a maioria dos alunos que reclamam frequentemente de suas realidades, esperando que venha o futuro, o mesmo que deveria ser construído por eles.

É muito interessante repetir como podemos ouvir o Roberto falando em suas páginas. Uma escrita muito próxima da sua oralidade, transformando o livro num espaço mais ameno, menos acadêmico.

“- Olha, vai ser bem fácil me localizar, eu sou albino, ta? É albino... Então, se eu não te enxergar, você me acha, ok?” p. 212

Paulistano, filho adotivo de Penápolis, percorreu a América do Norte, visitou os grandes “Hermanos”. Entrevistado por Jô Soares, fotografado por Gustavo Lacerda, autor de um dos blogs, senão o único, mais importante que reúne dados e contatos da realidade albina. Professor, filho de uma empregada doméstica e de um alfaiate. Doutor pela USP e professor efetivo de instituição de ensino federal.

Cabe a cada um dar o parecer da leitura feita. A mim, apenas dizer que merece ser sempre lembrado.

“escolhi não me trancafiar” p.127